terça-feira, 3 de maio de 2011

O ENSINO DA GRAMÁTICA HOJE

Existe, na atualidade, certa inquietação por parte de pesquisadores e docentes da língua portuguesa, quanto ao tipo de gramática a ser ensinado na escola. Observa-se, através da leitura de textos sobre o assunto em estudo, que existem argumentos polêmicos sobre o ensino da língua materna, qual o tipo de gramática ensinar e divergências sobre a necessidade de ser ensinada na escola a língua padrão.
Pretende-se, neste texto, fomentar uma análise acerca do ensino da gramática, na atualidade, praticado nas escolas brasileiras, sejam elas públicas ou particulares. Para tanto, primeiramente, faz-se necessário buscar o conceito de gramática e, logo após, avaliar quais os objetivos da escola, no que concerne ao ensino da língua materna.
Travaglia (1996, p. 24) assegura a existência de três visões que estabelecem a definição de gramática: a primeira é a Gramática Normativa, um conjunto sistemático de regras estabelecidas pelos especialistas, com base no uso da língua, consagrado pelos escritores clássicos, para reger o falar e o escrever bem; a segunda é a Gramática Descritiva, um conjunto de regras que o cientista encontra nos dados que analisa, à luz de determinada teoria e método; a terceira é a Gramática Internalizada ou Implícita, segundo a qual a língua é um conjunto de variedades utilizadas por uma sociedade, na qual o usuário estabelece um acordo tácito.
A Gramática Normativa, ensinada atualmente na escola, assume uma forma prescritiva em relação à língua e desconsidera outros aspectos do uso da mesma, negando assim a possibilidade de variações no uso da língua, de acordo com as diferentes situações comunicativas, e os fatores que nela interferem, como os socioculturais, geográficos, entre outros.
A escola, ao utilizar a Gramática Normativa, supervaloriza o dialeto padrão, fortalece as classes sociais dominantes e repassa a visão distorcida de que o estudo da língua portuguesa resume-se a uma infinidade de normas que, na realidade, não prepara o aluno para o uso proficiente da língua, sendo este o objetivo principal do ensino da língua materna na escola.
Bagno (2000, p. 87) explana que:

Com a instrumentalização da Gramática Normativa em mecanismo ideológico de poder e de controle de uma camada social sobre as demais, formou-se essa ‘falsa consciência’ coletiva de que os usuários de uma língua necessitam da Gramática Normativa como se ela fosse uma espécie de fonte mística da qual emana a língua ‘pura’. Foi assim que a língua subordinou-se à gramática.
Portanto, entende-se que ao buscar a uniformidade da língua, através do ensino da Gramática Normativa, a escola nega as diferenças sociais e ideológicas existentes na sociedade, fortalecendo o preconceito linguístico e, através da imposição do uso da língua culta, fortalece a segregação social e cultural.
Quanto aos objetivos da escola, no que diz respeito ao ensino da língua materna, Possenti (1997, p. 17) diz que: “ é ensinar o dialeto padrão, ou seja, criar condições para que ele tenha uso efetivo”. Diz ainda que há a necessidade de distinguir o papel da escola do papel da gramática e que o domínio da língua e o domínio da gramática são coisas distintas ente si.
Apreende-se, portanto, que a elucidação dessas relações, ainda ignoradas por muitos educadores, seja o maior desafio da escola brasileira do século XXI e a mola propulsora para reformular a metodologia do ensino da língua portuguesa, ainda hoje embasada de maneira restrita e equivocada ao ensino da gramática, com o objetivo de transformar as aulas em momentos críticos e reflexivos sobre a língua, para a aquisição de habilidades linguísticas e o desenvolvimento da competência comunicativa dos aprendizes, ou seja, da capacidade de uso adequado da língua nas diversas situações de interação comunicativa.
É certo que é imputado à escola o ensino da língua padrão, pois o seu domínio por parte dos discentes, isto é fato notório, é necessário. Contudo, é incontestável a urgência da criação de alternativas eficazes para o ensino da língua portuguesa nas escolas, considerando as variedades socioculturais dos falantes e o caráter mutável da língua, para promover a erradicação deste modelo de ensino elitista, excludente e conservador das escolas brasileiras, que coaduna com o fortalecimento das classes sociais dominantes.  
Não se trata de abolir das escolas os conteúdos relativos à gramática e ao ensino da norma padrão, mas de atribuir-lhes sentido, através de um estudo contextualizado e funcional, com propostas de atividades diversificadas de leitura e escrita, que contemplem os diversos gêneros e apresentem as variadas formas de comunicação entre os falantes da língua, eliminando a visão distorcida e meramente prescritiva do ensino da língua.
Finalmente, cabe à escola contemporânea difundir, entre os alunos, não somente as normas da língua padrão, mas as inúmeras formas alternativas de comunicação, ou seja, o caráter heterogêneo da língua, valorizando as diferentes realidades socioculturais e históricas existentes no Brasil.

REFERÊNCIAS

BAGNO, Marcos. Dramática da Língua Portuguesa. São Paulo; Loyola, 2000.
POSSENTI, S. Por que (não) ensinar a gramática na escola. Campinas; Mercado das Letras, 1997.
TRAVAGLIA, L.C. Gramática e interação: uma proposta para o ensino de gramática no 1º e 2º graus. São Paulo: Cortez, 2002.


Ana Quesado Sombra

Nenhum comentário:

Postar um comentário